Tudo era um enigma sem nexo talvez, mas ela sabia que isso a deixava feliz, envaidecida.
Enfim vivia outra vez, mesmo que fosse por um minuto, uma fração de um tempo que estava escasso pra ela, aos quarenta e três anos não sonhava mais com paixão, amor e romances.
No ônibus todos os dias aquele garoto a olhava, a devorava com o olhar, ela sentia ele, comendo a com os olhos, mas achava que algo de errado ele via nela, nunca imaginou nada além de ter um que de estranho e ele observa la por essa razão.
Só ontem ela leu nos olhos dele o desejo, viu neles refletido aquele brilho, aquele fogo e ele nem tentava disfarçar, meio encabulada e envaidecida ela se retraia. Ele sentou do outro lado um pouco mais atrás e assim, ela sentia seu olhar queimando a, chegou sua parada e ele ficou olhando a como um bobo, tentou sorrir ou balbuciar algo, mas foi só, ela desce e ele pela janela observa seu caminhar.
No dia seguinte tudo igual ela entra no ônibus ele também, a cena se repete, não trocam palavras nem mesmo olhares, mas ela sabe que ele a deseja e ele sabe que ela sabe. Outros dias seguem e eles os amantes seguem no silêncio que os tornam únicos nessa entrega sem toques, sem palavras, apenas essa emoção os domina.
Numa bela quinta-feira ela entra no coletivo e ele não está, disfarçadamente o procura com o olhar nada, hora do ônibus partir, seu coração aflito chora a saudade, quando seus olhos ávidos o avistam do outro lado da avenida, correndo pra chegar a tempo, tarde demais o carrasco sai sem piedade levando as esperanças dela, deixando o desespero dele. No dia seguinte ela capricha no visual, se esmera na roupa, no batom mais escuro, os cabelos mais modernos, clareia os , faz um corte atual, chega no ponto como se fosse ao primeiro encontro trêmula e ansiosa, minutos depois ele chega, entra na fila, não a viu ou melhor a viu de costas e não a reconheceu, olha em volta e pensa mais um dia não nos veremos, entram no ônibus, ela caminha ao seu lugar preferido e espera por ele, quando ele a vê se encanta e dispara um oi, ela tímida e nervosa responde. Seguem naquele sacolejar do coletivo ao som das vozes diversas narrando histórias múltiplas, ela chega ao seu destino e ele diz tchau, flutuando ela responde.
Todos os dias aquele encanto mágico se repete entre eles amantes apaixonados ,amantes de um amor sem entregas, mas de uma paixão sem limites, paixão de sangrar a alma, ela o ama desesperadamente ele a deseja com todas as forças, mas ambos tem medo desse amor e apenas seguem nesse espaço que pra eles é sagrado é eterno. Mais uma tarde, outra vez o ônibus, outra vez o destino cruel que os leva ao devaneio de se possuírem além dali, além de tudo, mas são eles efêmeros nessa existência apenas sonham nada mais.
Graça Tavares
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